Medicamentos em caixas semanal: risco real para a saúde
Guardar comprimidos em caixas organizadoras para poupar espaço ou facilitar a toma diária pode pôr em causa a eficácia dos fármacos. A farmacêutica Verónica Olmos alerta que este costume, comum em lares angolanos, expõe os medicamentos a condições que reduzem o seu efeito terapêutico.

Muitos angolanos recorrem a caixas semanais para organizar os medicamentos que tomam diariamente. O objectivo é simples: evitar confusões na hora da dose e manter os comprimidos acessíveis. No entanto, esta prática, embora prática, pode comprometer a qualidade dos fármacos, segundo a farmacêutica Verónica Olmos.
A especialista explica que as embalagens originais dos medicamentos não são meros recipientes. Cada detalhe, desde o material até à cor do revestimento, foi desenhado para proteger o fármaco de factores que podem alterar a sua composição. Medicamentos com revestimento branco e transparente, por exemplo, costumam ser mais resistentes à luz e à humidade. Já os que têm revestimento amarelo são mais sensíveis e devem permanecer nas suas embalagens até ao momento da toma.
Os medicamentos embalados em alumínio oferecem uma proteção extra. Este material actua como uma barreira contra a luz, a humidade e as variações de temperatura, condições que podem degradar os princípios activos dos comprimidos. Quando retirados das embalagens originais, estes fármacos ficam expostos a riscos desnecessários, reduzindo a sua eficácia.
Outro ponto de atenção são os medicamentos com as siglas LP, AP ou XR. Estas letras indicam que o fármaco tem libertação prolongada ou acção prolongada, ou seja, foi formulado para libertar o princípio activo de forma controlada ao longo do tempo. Separar estes comprimidos em caixas diárias ou semanais pode interromper este processo, afectando directamente o tratamento.
O hábito de reorganizar medicamentos é frequente entre pessoas que tomam vários fármacos ao dia, especialmente idosos ou doentes crónicos. Em Angola, onde o acesso a farmácias nem sempre é fácil, muitos optam por comprar medicamentos em grandes quantidades e guardá-los em casa. A prática de os transferir para caixas organizadoras acaba por ser vista como uma solução prática, mas sem perceber os riscos associados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou para os perigos de expor medicamentos a condições inadequadas. Segundo a entidade, a humidade e a luz directa podem degradar até 30% dos fármacos armazenados incorrectamente. Embora este número não seja uma regra absoluta, reflecte a importância de seguir as recomendações dos fabricantes e dos profissionais de saúde.
Em países com climas tropicais como Angola, a humidade é um factor constante que acelera a degradação dos medicamentos. Os comprimidos podem perder a sua potência ou, em casos extremos, desenvolver substâncias tóxicas. A farmacêutica Verónica Olmos reforça que a melhor prática é manter os medicamentos nas suas embalagens originais até ao momento de uso.
Para quem já adoptou o hábito de usar caixas organizadoras, a recomendação é simples: rever os medicamentos armazenados e, se possível, devolvê-los às embalagens originais. Caso isso não seja viável, é fundamental armazená-los num local fresco, seco e ao abrigo da luz directa. Evitar lugares como casas de banho ou cozinhas, onde a humidade e as variações de temperatura são mais comuns.
Ainda assim, a especialista reconhece que nem sempre é fácil seguir estas orientações. Em lares com vários membros a tomar medicamentos diferentes, a organização pode tornar-se um desafio. Nesses casos, a solução passa por adoptar sistemas alternativos que não comprometam a integridade dos fármacos, como caixas com divisórias individuais e seladas.
Outra questão relevante é a data de validade. Muitos angolanos guardam medicamentos em casa durante meses ou até anos, acreditando que, se não foram abertos, estão seguros. No entanto, a validade de um fármaco não depende apenas da embalagem estar intacta. Factores como a temperatura e a humidade podem reduzir o seu tempo de vida útil, mesmo antes de a data de validade chegar.
A farmácia comunitária é outro ponto de apoio para quem tem dúvidas sobre como armazenar os medicamentos. Os profissionais nestes espaços estão treinados para orientar os utentes sobre as melhores práticas, especialmente em relação a medicamentos sensíveis.
Em resumo, a organização dos medicamentos deve priorizar a segurança em detrimento da praticidade. Embora as caixas semanais possam parecer uma solução eficiente, os riscos para a saúde são reais. A farmacêutica Verónica Olmos deixa um conselho claro: quando em dúvida, mantenha os comprimidos nas embalagens originais até ao momento de tomar a dose.
Este cuidado extra pode fazer a diferença entre um tratamento eficaz e um desperdício de recursos, além de evitar complicações de saúde desnecessárias. Em Angola, onde o acesso a medicamentos nem sempre é garantido, cada comprimido conta — e a sua correcta conservação é um passo fundamental para garantir que cumprem o seu papel.
Fonte: Notícias ao Minuto - Última Hora
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