Saúde mental em Angola: famílias ainda ignoram ajuda profissional
A saúde mental continua a ser um tema negligenciado em muitas famílias angolanas. Segundo o psicólogo Amâncio Emanuel Justino, a maioria das pessoas prefere recorrer a soluções espirituais ou comunitárias quando enfrenta problemas psicológicos, em vez de procurar ajuda profissional. O especialista alerta que esta mentalidade atrasa o tratamento adequado de doenças como depressão ou ansiedade.

Em Menongue, província do Cubango, um recente caso envolvendo uma mulher de 29 anos reacendeu o debate sobre como a sociedade angolana encara a saúde mental. A detenção da jovem, cujos detalhes ainda não foram totalmente esclarecidos, serviu como exemplo de como a falta de apoio psicológico pode agravar situações delicadas. O psicólogo Amâncio Emanuel Justino, ouvido sobre o assunto, destaca que a negligência familiar é um dos principais obstáculos para o tratamento adequado de doenças mentais no país.
O especialista explica que, em muitos lares angolanos, problemas psicológicos são vistos como fraqueza ou como questões espirituais. Esta crença leva as famílias a encaminhar os seus entes queridos para líderes religiosos ou figuras comunitárias, em vez de consultar um psicólogo. "As pessoas ainda associam problemas psicológicos a fraqueza ou a questões espirituais", afirma Justino. Para ele, esta mentalidade não só atrasa a procura por ajuda qualificada, como também agrava os casos, tornando-os mais difíceis de resolver.
A falta de informação contribui significativamente para o problema. Muitos angolanos desconhecem os sinais de alerta de doenças mentais ou não sabem onde encontrar apoio profissional. "É preciso desmistificar o tema e mostrar que a saúde mental é tão importante quanto a física", defende o psicólogo. Esta desinformação leva a que muitas pessoas só procurem ajuda quando a situação já está fora de controlo, o que reduz as hipóteses de recuperação.
O caso ocorrido em Menongue serve como um alerta sobre o apoio psicológico disponível nas províncias angolanas. Embora os detalhes ainda não estejam totalmente esclarecidos, o episódio levanta questões sobre a rede de cuidados de saúde mental no interior do país. Justino sublinha que Angola precisa de mais campanhas de sensibilização e de profissionais capacitados para lidar com a crescente procura por serviços de saúde mental.
A situação não é exclusiva de Angola. Em muitos países africanos, a saúde mental ainda enfrenta estigmas semelhantes. No entanto, algumas nações já começaram a tomar medidas para mudar este cenário. Programas de formação para líderes comunitários e campanhas de informação têm sido implementados em vários locais, com resultados positivos. Estes esforços mostram que é possível combater os preconceitos e aumentar o acesso a tratamentos psicológicos.
Em Angola, a falta de recursos é outro grande desafio. Nas províncias mais afastadas, como o Cubango, a escassez de profissionais e estruturas adequadas agrava ainda mais a situação. Justino apela às autoridades para investirem em políticas públicas que facilitem o acesso a tratamentos psicológicos, especialmente nas regiões onde os recursos são escassos. "A saúde mental não pode continuar a ser tratada como um tema menor", conclui o psicólogo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou várias vezes para a importância de integrar a saúde mental nos sistemas de saúde pública. Segundo a organização, doenças como a depressão e a ansiedade afectam milhões de pessoas em todo o mundo, mas muitas não recebem o tratamento necessário devido a barreiras culturais e falta de acesso a serviços. Em África, esta realidade é ainda mais acentuada, com poucos países a terem políticas efectivas nesta área.
Em Luanda e noutras cidades angolanas, já existem alguns serviços de saúde mental, mas a procura ainda é baixa. Muitos cidadãos preferem resolver os seus problemas dentro de casa ou com a ajuda de figuras religiosas, em vez de recorrer a profissionais. Esta tendência reflecte uma cultura que, durante décadas, associou o sofrimento psicológico a questões de ordem espiritual ou moral.
Para mudar este cenário, especialistas defendem que é necessário um trabalho conjunto entre governos, organizações não-governamentais e comunidades. Campanhas de sensibilização, formação de profissionais e investimento em infraestruturas são passos essenciais. Só assim será possível reduzir o estigma e garantir que mais pessoas recebam o apoio de que precisam.
O caso de Menongue é um lembrete de que a saúde mental não pode ser ignorada. Enquanto não houver uma mudança de mentalidade e mais recursos disponíveis, muitas pessoas continuarão a sofrer em silêncio. A esperança é que, com o tempo, Angola consiga criar uma rede de cuidados psicológicos acessível e eficaz, capaz de responder às necessidades da população.
Fonte: Correio da Kianda
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