Governo investe em água potável para sul de Luanda
O Executivo angolano anunciou a modernização das redes de distribuição de água na zona sul da capital, Luanda. A decisão, assinada pelo Presidente da República, João Lourenço, visa melhorar o acesso à água potável numa região com crescente pressão populacional. As obras incluem actualização tecnológica da EPAL e expansão da cobertura em bairros onde a escassez é frequente.

A falta de água potável em bairros densamente povoados do sul de Luanda tem sido um problema recorrente nos últimos anos. Moradores de zonas como o bairro do Boavista ou o Sambizanga Sul relatam há muito tempo filas intermináveis junto aos pontos de distribuição, especialmente durante a estação seca. A situação agrava-se na época do calor, quando a procura dispara e as reservas dos reservatórios locais não conseguem acompanhar o ritmo. A EPAL, empresa pública responsável pelo abastecimento na província, tem enfrentado dificuldades para manter a qualidade e a regularidade do serviço, mesmo com investimentos pontuais em furos e cisternas comunitárias.
A decisão do Governo surge num contexto em que a capital angolana enfrenta um crescimento urbano acelerado. Luanda recebe diariamente centenas de novos residentes, muitos deles vindos de zonas rurais em busca de oportunidades. Este movimento migratório sobrecarrega infraestruturas já antigas, desenhadas para uma população muito menor do que a actual. Os bairros informais, que se expandem sem planeamento, são os primeiros a sofrer com a falta de serviços básicos, e a água potável é um dos mais afectados.
A modernização tecnológica da EPAL é apontada como uma solução para reduzir as perdas no sistema. Em muitas cidades africanas, sistemas de monitorização digital permitiram identificar fugas e desperdícios com muito mais precisão do que os métodos tradicionais. Em países como a Namíbia ou o Quénia, por exemplo, a instalação de sensores e softwares de gestão de água reduziu significativamente as perdas nas redes, melhorando a distribuição para zonas periféricas. Estas experiências mostram que a tecnologia pode ser uma aliada na resolução de crises de abastecimento, especialmente em regiões onde os recursos são limitados.
A expansão das redes de distribuição beneficiará directamente bairros como o Cuca, o Palanca ou o Rangel, áreas onde a população depende de água comprada a preços elevados ou transportada por camiões-cisterna. A falta de infraestruturas adequadas nestes locais obriga muitas famílias a gastar uma parte significativa do seu rendimento em água, um cenário que agrava a pobreza e limita o desenvolvimento local. A iniciativa do Governo poderá, assim, aliviar a pressão sobre as famílias e reduzir a dependência de soluções improvisadas.
O plano anunciado não é o primeiro a tentar resolver este problema. Nos últimos cinco anos, já foram feitos investimentos em novos reservatórios e em programas de reabilitação de redes em várias províncias. No entanto, os resultados nem sempre foram duradouros. Em alguns casos, a falta de manutenção rápida ou a ausência de um plano integrado de gestão levou a que os avanços fossem temporários. A actual abordagem, que combina modernização tecnológica com expansão física, poderá ser mais efectiva se for acompanhada de um compromisso a longo prazo com a manutenção das infraestruturas.
Outro desafio será garantir que os novos sistemas cheguem a toda a população, incluindo as zonas mais isoladas. Em muitos países africanos, projectos semelhantes falharam porque não consideraram as realidades locais, como a topografia acidentada ou a resistência de comunidades que desconfiam de mudanças nos seus métodos tradicionais de acesso à água. A EPAL terá de trabalhar em parceria com líderes comunitários e organizações locais para assegurar que as soluções sejam aceites e utilizadas correctamente.
A transparência nos processos de contratação é outro ponto crítico. Em anos anteriores, vários projectos de infraestrutura em Angola foram alvo de críticas devido a suspeitas de irregularidades nos contratos. O Governo já garantiu que os procedimentos serão conduzidos de forma célere e transparente, mas a população vai exigir provas concretas de que os recursos serão aplicados como anunciado. A fiscalização por parte de órgãos independentes e a divulgação regular de relatórios de progresso poderão ajudar a construir confiança.
Para as famílias que sofrem com a falta de água, a notícia é recebida com esperança, mas também com cautela. Muitos recordam promessas anteriores que não se concretizaram ou projectos que ficaram pela metade. A paciência da população está a esgotar-se, especialmente entre os mais jovens, que cresceram num ambiente onde a água potável é um luxo em vez de um direito básico. A rapidez na execução das obras será, por isso, determinante para que a confiança seja restaurada.
A modernização das redes de água em Luanda não é apenas uma questão de infraestrutura. É também uma oportunidade para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida de milhares de famílias. Se bem-sucedida, esta iniciativa poderá servir de exemplo para outras províncias angolanas que enfrentam desafios semelhantes. O sucesso dependerá, contudo, de um planeamento cuidadoso, de investimentos consistentes e de uma gestão transparente que envolva toda a comunidade.
Fonte: Correio da Kianda
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