El Niño ameaça milhões em África com secas e inundações
O fenómeno climático El Niño já começou a afectar milhões de pessoas em várias regiões de África. Enquanto na África Oriental as chuvas intensas provocam inundações e deslizamentos, na África Austral a seca ameaça colheitas e fontes de água. A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta para a necessidade de preparação imediata das comunidades mais vulneráveis.

O El Niño é um fenómeno natural que ocorre quando as águas do Oceano Pacífico aquecem acima da média, alterando os padrões climáticos globais. Embora seja um evento cíclico, os cientistas têm observado que as mudanças climáticas podem intensificar a sua frequência e gravidade. Segundo os serviços meteorológicos internacionais, este ciclo actual poderá manter-se activo até ao início de 2027, prolongando os seus efeitos em várias regiões do planeta. Em África, as consequências já se fazem sentir de formas distintas, dependendo da localização geográfica.
Na África Oriental, países como a Somália, a Tanzânia e o Quénia enfrentam chuvas anormalmente fortes, que têm provocado inundações repentinas, transbordamento de rios e deslizamentos de terra. As comunidades rurais são as mais afectadas, com casas submersas, estradas destruídas e infraestruturas essenciais, como escolas e centros de saúde, isolados do resto do território. As populações ficam sem acesso a serviços básicos e enfrentam dificuldades acrescidas para obter alimentos e água potável. A água acumulada em poças e valas torna-se um ambiente propício para a proliferação de mosquitos, aumentando o risco de doenças como a malária e a cólera.
Já na África Austral, o cenário é oposto: a seca prolongada tem dizimado colheitas, secado fontes de água e reduzido drasticamente as pastagens disponíveis para o gado. Países como a Zâmbia, a Namíbia, o Botswana e Moçambique registam quebras significativas na produção agrícola, o que põe em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas. Sem água para irrigação ou consumo, as famílias dependentes da agricultura de subsistência ficam especialmente vulneráveis. A falta de chuva também afecta os ecossistemas, reduzindo a biodiversidade e aumentando a pressão sobre os recursos naturais já limitados.
Os impactos do El Niño não se limitam à perda de colheitas ou à destruição de infraestruturas. As populações deslocadas pelas inundações ou pela seca são obrigadas a abandonar as suas terras, muitas vezes de forma permanente, em busca de condições de vida mais estáveis. Esta migração forçada sobrecarrega as comunidades de acolhimento e pode gerar conflitos por recursos escassos. Além disso, a contaminação das fontes de água durante as inundações aumenta o risco de surtos de doenças, enquanto a seca prolongada enfraquece os sistemas imunitários das populações mais afectadas.
A Organização das Nações Unidas tem vindo a coordenar esforços para minimizar os danos causados pelo El Niño em África. A assistência humanitária inclui a distribuição de alimentos, água potável e kits de higiene, bem como o reforço de sistemas de alerta precoce para prevenir tragédias. No entanto, os recursos são muitas vezes insuficientes face à dimensão da crise. A ONU tem apelado à comunidade internacional para que aumente o apoio financeiro e logístico, destacando que a prevenção é mais eficaz e económica do que a resposta a emergências.
A história recente mostra que fenómenos como o El Niño podem ter consequências duradouras. Em anos anteriores, outros países africanos já enfrentaram situações semelhantes, com secas ou inundações que deixaram comunidades inteiras sem meios de subsistência durante meses ou mesmo anos. A falta de investimento em infraestruturas resilientes e em sistemas de gestão de risco agrava ainda mais a vulnerabilidade das populações. Especialistas sublinham que a adaptação às mudanças climáticas deve ser uma prioridade, não apenas para mitigar os efeitos do El Niño, mas também para preparar o continente para eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
Em Angola, embora o impacto directo do El Niño possa variar consoante a região, o país não está imune aos seus efeitos. A dependência da agricultura familiar e a vulnerabilidade a fenómenos climáticos extremos tornam a população angolana especialmente sensível a alterações no padrão de chuvas ou secas prolongadas. As autoridades e organizações não governamentais têm vindo a trabalhar em estratégias de adaptação, mas a escala do desafio exige uma resposta coordenada e sustentada.
A comunidade internacional tem um papel crucial a desempenhar na resposta a esta crise. Além do apoio financeiro, é necessário partilhar tecnologias e conhecimentos que ajudem as comunidades a tornarem-se mais resilientes. A cooperação entre países africanos e parceiros internacionais pode facilitar a troca de experiências e boas práticas, permitindo que as lições aprendidas em uma região sejam aplicadas noutra. A longo prazo, investir em agricultura sustentável, gestão de recursos hídricos e sistemas de alerta precoce pode reduzir significativamente os impactos futuros.
O El Niño é um lembrete de que as alterações climáticas não são um problema futuro, mas uma realidade que já está a afectar milhões de vidas. A resposta a esta crise exige acção imediata, mas também uma visão a longo prazo que priorize a adaptação e a resiliência das comunidades mais vulneráveis. Sem medidas concretas, os ciclos de seca e inundações continuarão a repetir-se, deixando as populações mais pobres em situações cada vez mais precárias.
Fonte: AllAfrica
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