Cubanos adaptam rotinas ao ritmo dos apagões diários
Em Cuba, milhões de pessoas vivem agora com menos de uma hora de electricidade por dia. Nas ruas de Havana e noutras cidades, os relógios marcam os minutos até a luz regressar. Quando a corrente volta, mesmo que por breves instantes, é tempo para recarregar telemóveis, preparar refeições ou estudar — tarefas que agora dependem de um calendário imprevisível.

A crise energética em Cuba atingiu níveis críticos. Nas principais cidades, como Havana, Santiago de Cuba e Camagüey, os cortes de electricidade tornaram-se rotina. As famílias organizam as suas vidas em torno dos breves períodos em que a energia regressa, mesmo que seja por apenas vinte minutos. Nesses momentos, o que antes era simples — acender uma lâmpada ou ligar um ventilador — transforma-se numa corrida contra o tempo. Os electrodomésticos mais essenciais, como frigoríficos ou máquinas de lavar, são usados em horários específicos, enquanto os restantes ficam inutilizados até nova oportunidade.
Nas casas, a adaptação passa por soluções improvisadas. Muitos cubanos investem em baterias solares ou pequenos geradores, mesmo que isso signifique gastar dinheiro em mercados paralelos onde os preços são inflacionados pela procura. As crianças estudam à luz de velas ou lanternas quando a escuridão toma conta das salas, enquanto os adultos tentam manter os seus negócios a funcionar com o mínimo de recursos. Nas ruas, os candeeiros públicos apagam-se com frequência, obrigando os transeuntes a deslocar-se com lanternas ou a luz dos telemóveis.
A falta de combustível para as centrais eléctricas agrava ainda mais a situação. As autoridades cubanas admitem as dificuldades no sector energético, mas as soluções não surgem com a mesma velocidade dos cortes. Os cortes programados podem estender-se por dias, deixando bairros inteiros sem energia durante longos períodos. Nas províncias mais afastadas da capital, a situação é ainda mais grave, com comunidades isoladas a dependerem de geradores comunitários que, muitas vezes, também ficam sem combustível.
A crise reflecte-se em todos os sectores da sociedade. Nos hospitais, os equipamentos médicos essenciais dependem de geradores de emergência, mas mesmo estes enfrentam escassez de combustível. Os doentes são transferidos para outras instalações quando possível, enquanto os que ficam dependem de tratamentos interrompidos pela falta de energia. Nas escolas, os professores adaptam os horários para aproveitar os momentos em que a electricidade regressa, mas a qualidade do ensino sofre com a falta de recursos.
Nas ruas, a população expressa a sua frustração. As promessas governamentais de recuperação da rede eléctrica ainda não se concretizaram, e os cidadãos pedem respostas urgentes. Em comunicados oficiais, o governo reconhece a gravidade da situação, mas adianta que a resolução depende de factores externos, como a importação de combustível e a manutenção das infra-estruturas. Enquanto isso, os cubanos continuam a viver ao ritmo dos apagões, ajustando as suas rotinas a um cenário que parece não ter fim à vista.
A crise energética em Cuba não é um fenómeno isolado. Outros países já enfrentaram situações semelhantes no passado, com cortes prolongados que afectaram a vida quotidiana de milhões de pessoas. Em casos como o do Zimbabué ou da Venezuela, as soluções passaram por investimentos em energias renováveis e pela diversificação das fontes de energia. Em Cuba, no entanto, a dependência de combustíveis importados e a falta de manutenção das infra-estruturas tornam a recuperação mais complexa.
A população cubana, habituada a viver com restrições, demonstra uma resiliência notável. As famílias partilham recursos, como baterias ou geradores, e organizam-se para minimizar o impacto dos cortes. Nas comunidades, surgem iniciativas locais para criar redes de apoio, como a distribuição de velas ou lanternas em bairros mais afectados. No entanto, a situação prolongada começa a cobrar o seu preço, com um aumento do stress e da incerteza entre os cidadãos.
As autoridades cubanas têm vindo a destacar a importância de poupar energia e de adoptar medidas de eficiência, mas a população questiona-se sobre a capacidade do governo para resolver o problema a curto prazo. Enquanto aguardam por soluções, os cubanos continuam a viver num ritmo ditado pela falta de electricidade, onde cada minuto de luz conta e cada apagão representa um novo desafio.
A crise actual em Cuba serve também como um alerta para outros países que dependem fortemente de uma única fonte de energia. A diversificação das fontes e o investimento em infra-estruturas mais resilientes são passos essenciais para evitar situações semelhantes no futuro. Em tempos de incerteza energética global, a história de Cuba é um exemplo de como a falta de planeamento pode afectar a vida de milhões de pessoas.
Enquanto isso, nas ruas de Havana e noutras cidades, os relógios continuam a marcar o tempo até à próxima vez que a luz regressa. Para os cubanos, a electricidade deixou de ser um serviço garantido para se tornar num privilégio intermitente, obrigando a uma reorganização constante das suas vidas.
Fonte: Correio da Kianda
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