Graciany Sukissa fala dos desafios da carreira artística em Angola
A actriz, apresentadora e modelo Graciany Sukissa considera que o maior desafio da sua carreira não está em viver personagens no palco, mas em regressar à realidade depois de cada espectáculo. Em entrevista recente, a artista destacou ainda os obstáculos que travam o crescimento dos profissionais das artes performativas no país.

Ser actriz em Angola exige mais do que talento. Para Graciany Sukissa, que já pisou palcos de teatro e telas de cinema, o maior teste surge quando a cortina desce. "O grande desafio de ser actriz é sair da personagem para a vida real", afirmou a artista, conhecida por integrar produções como A Ficha Entrou e pela estreia em Querido Vou Posar Nua. Depois de horas a viver outras vidas, o regresso ao quotidiano nem sempre é fácil. A pressão de manter a concentração e o equilíbrio emocional entre os compromissos profissionais e a vida pessoal transforma-se num exercício diário de disciplina.
O teatro angolano, onde Sukissa iniciou a sua carreira no Elinga Teatro, enfrenta barreiras que vão muito além das dificuldades individuais. A falta de investimento em infraestruturas adequadas, a escassez de oportunidades para projecção internacional e a fragilidade das políticas culturais são problemas estruturais que limitam o desenvolvimento do sector. Sem palcos bem equipados, equipas técnicas qualificadas ou redes de distribuição estáveis, muitos artistas vêem os seus talentos restringidos ao âmbito local, mesmo quando o seu trabalho mereceria maior alcance.
Para além das condições materiais, a organização pessoal torna-se uma peça fundamental na vida de quem vive das artes. "Tenho uma agenda preenchida e não posso aceitar trabalhos sem garantir que consigo honrar os compromissos", explicou Sukissa. O ritmo acelerado das produções, que exige dedicação total, obriga os profissionais a gerir cada projecto com extremo cuidado. Um adiamento ou cancelamento pode afectar não só a carreira individual, mas também a credibilidade do sector como um todo.
A actriz, que também trabalha como apresentadora de televisão e modelo, acumula experiências tanto em projectos nacionais como internacionais. A sua participação em companhias como o Horizonte Njinga Mbande permitiu-lhe viver realidades distintas, sempre com o objectivo de crescer como profissional. Cada novo trabalho representa um desafio diferente, mas também uma oportunidade de aprendizagem. "Cada trabalho é um desafio diferente, mas também uma oportunidade de crescer como profissional", afirmou.
Apesar das dificuldades, Sukissa mantém-se optimista quanto ao futuro das artes performativas em Angola. O sector precisa de mais apoio para que os seus profissionais possam competir a nível global sem perder a ligação às suas raízes culturais. A valorização do património local, aliada a investimentos consistentes, poderia criar condições para que artistas angolanos fossem reconhecidos além-fronteiras. Hoje, muitos profissionais vêem-se obrigados a procurar oportunidades no exterior, onde as estruturas são mais sólidas, mas isso nem sempre garante a preservação da identidade cultural que define o seu trabalho.
O caso de Graciany Sukissa reflecte uma realidade partilhada por muitos artistas angolanos. A falta de políticas públicas que incentivem a cultura, a ausência de editais regulares e a dependência de projectos pontuais tornam o percurso profissional instável. Em países com sectores culturais mais desenvolvidos, os artistas contam com apoios governamentais, bolsas de estudo e programas de residência que lhes permitem dedicar-se integralmente à sua arte. Em Angola, a maioria dos profissionais tem de conciliar várias actividades para sobreviver, o que limita o tempo disponível para a formação contínua e a experimentação criativa.
A situação não é exclusiva de Angola. Em várias nações africanas, os artistas enfrentam desafios semelhantes, desde a falta de infraestruturas até à dificuldade em aceder a mercados internacionais. Em alguns casos, iniciativas da sociedade civil e parcerias com organizações internacionais têm ajudado a criar redes de apoio, mas o impacto ainda é limitado. A profissionalização do sector, com formação técnica e gestão de carreira, é um passo necessário para que os artistas possam viver exclusivamente da sua arte.
Para os profissionais que, como Sukissa, já conquistaram espaço no mercado, o exemplo serve de inspiração para os que estão a começar. A actriz defende que o sector precisa de mais visibilidade e de mecanismos que facilitem a internacionalização sem perder a essência local. "O sector artístico angolano precisa de mais apoio para que os seus profissionais possam competir a nível global sem perder a ligação às suas raízes culturais", salientou.
O futuro das artes performativas em Angola depende, em grande parte, da capacidade de unir esforços entre artistas, instituições e governos. Enquanto isso não acontece, muitos profissionais continuam a lutar contra as adversidades, mantendo viva a esperança de um dia ver o seu trabalho reconhecido tanto dentro como fora do país. A história de Graciany Sukissa é um testemunho da resiliência necessária para sobreviver num sector ainda em construção, onde cada passo conta como uma vitória.
Nos próximos anos, a atenção ao sector cultural angolano poderá determinar se o país conseguirá reter os seus talentos ou se, pelo contrário, continuará a perdê-los para mercados mais estruturados. Enquanto aguardam por mudanças concretas, artistas como Sukissa seguem em frente, transformando cada desafio numa oportunidade de crescimento e cada projecto numa prova de que a arte angolana tem valor para partilhar com o mundo.
Fonte: Expansão
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