Acidente no Cuanza Sul expõe riscos das estradas angolanas
Onze pessoas morreram carbonizadas depois de uma motorizada carregada com combustível colidir com um autocarro na estrada entre Sumbe e Porto Amboim, no Cuanza Sul. O acidente, que aconteceu por volta das duas da tarde de segunda-feira, transformou-se num incêndio de grandes proporções, obrigando as equipas de emergência a trabalhar durante horas para controlar as chamas e resgatar as vítimas.

O choque entre os dois veículos ocorreu numa zona de tráfego intenso, onde a fiscalização de velocidade é quase inexistente. Segundo testemunhas, o condutor da motorizada transportava um contentor cheio de combustível, o que agravou a situação e dificultou o trabalho dos bombeiros. Todas as vítimas eram passageiros do autocarro, todos do sexo masculino, que seguiam em direção a Sumbe quando o acidente aconteceu.
As equipas de emergência enfrentaram um cenário complexo: o fogo alastrou rapidamente devido ao combustível derramado, criando uma barreira de chamas que atrasou o acesso aos corpos. Os bombeiros e agentes da proteção civil trabalharam sob temperaturas elevadas e com recursos limitados, num esforço que se prolongou por várias horas. A estrada, conhecida por ser uma das mais movimentadas da província, regista frequentemente problemas de manutenção e falta de sinalização adequada.
As autoridades já iniciaram uma investigação para determinar as causas exactas do acidente. Enquanto isso, especialistas em segurança rodoviária alertam que casos como este não são raros em Angola, onde as estradas continuam a ser um dos pontos mais frágeis da infraestrutura nacional. A ausência de fiscalização rigorosa, a manutenção deficiente dos veículos e o excesso de velocidade são factores que, há anos, contribuem para o elevado número de acidentes com vítimas mortais no país.
Em 2023, a Polícia Nacional registou mais de três mil e quinhentos acidentes rodoviários com mortes, a maioria deles ligados a estas mesmas causas. O cenário repete-se em várias províncias, com destaque para as estradas que ligam as capitais regionais aos municípios. A falta de investimento em sinalização, pavimentação e fiscalização transforma estas vias em zonas de alto risco, onde qualquer erro pode ter consequências fatais.
A segurança nas estradas angolanas é um desafio que se arrasta há décadas. Mesmo com campanhas de sensibilização e algumas operações de fiscalização pontuais, os resultados ainda estão longe do desejado. Especialistas em transportes afirmam que, sem uma mudança estrutural — que inclua desde a modernização das vias até à formação contínua dos condutores —, os números continuarão a subir. Países com realidades semelhantes já adoptaram medidas como a instalação de radares, a criação de faixas exclusivas para veículos pesados e a obrigatoriedade de revisões técnicas mais frequentes, mas em Angola a implementação dessas soluções ainda enfrenta obstáculos burocráticos e financeiros.
O acidente no Cuanza Sul não é um caso isolado. Em anos anteriores, outras províncias também registaram tragédias semelhantes, muitas delas envolvendo veículos de transporte público ou motorizadas carregadas com mercadorias perigosas. A combinação de factores — desde a falta de manutenção dos veículos até à ausência de fiscalização — cria um ambiente propício a desastres. A população, sobretudo nas zonas rurais e periurbanas, depende muitas vezes destes meios de transporte, mesmo sabendo dos riscos.
As autoridades têm reforçado os apelos à população para que evite viagens não essenciais em horários de maior movimento e para que denuncie condutores em excesso de velocidade ou em condições perigosas. No entanto, especialistas sublinham que a solução passa também por investimentos a longo prazo. A modernização das estradas, com pavimentação de qualidade e sinalização clara, é apontada como uma das formas mais eficazes de reduzir os acidentes. Além disso, a fiscalização deve ser constante e não apenas em períodos de campanha.
A tragédia no Cuanza Sul serve como mais um alerta para um problema que o país arrasta há anos. Enquanto não houver uma acção coordenada entre o governo, as autarquias e a sociedade civil, os acidentes continuarão a ceifar vidas. A pergunta que fica é: quantas tragédias serão necessárias até que as estradas angolanas deixem de ser sinónimo de perigo?
Até lá, as famílias das vítimas terão de lidar com a perda, e a sociedade angolana com a realidade de um sistema que, há demasiado tempo, não consegue garantir segurança nas suas vias.
Fonte: Correio da Kianda
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