Empresas públicas angolanas dependem de Sonangol e Unitel para lucros
O Sector Empresarial Público (SEP) angolano fechou 2025 com um lucro recorde de 949 mil milhões de Kz. Sem a petrolífera Sonangol e a operadora de telecomunicações Unitel, o conjunto das restantes 76 empresas teria registado um prejuízo de 72 mil milhões de Kz. Os dados são do relatório anual do IGAPE, tornado público esta semana.

O ano de 2025 ficou marcado como um dos melhores para o Sector Empresarial Público angolano. Pela primeira vez em mais de uma década, o conjunto das 78 empresas controladas pelo Estado conseguiu fechar o exercício com números positivos. O lucro agregado atingiu os 949 mil milhões de Kz, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior. Este desempenho, no entanto, esconde uma realidade preocupante: a dependência quase total de apenas duas empresas para sustentar os resultados do sector.
A Sonangol, empresa nacional de petróleo, foi responsável por 862,4 mil milhões de Kz dos lucros totais. A Unitel, gigante das telecomunicações, contribuiu com mais 158,4 mil milhões de Kz. Juntas, estas duas empresas representam 91% do total de lucros do SEP. Se fossem retiradas do cálculo, o cenário inverter-se-ia drasticamente. As restantes 76 empresas públicas teriam acumulado um prejuízo líquido de 72 mil milhões de Kz, apagando por completo a tendência positiva registada no ano.
Esta situação levanta questões sobre a saúde financeira real do Sector Empresarial Público. Especialistas ouvidos pelo IGAPE destacam que grande parte dos lucros da Sonangol e da Unitel não resulta das suas actividades principais. No caso da petrolífera, os ganhos estão frequentemente ligados a factores externos, como flutuações cambiais ou ajustes contabilísticos. Estes elementos, embora legítimos, não reflectem a eficiência operacional das empresas.
O relatório do IGAPE sublinha que o SEP continua a ser um pilar económico para Angola. As empresas públicas empregam milhares de trabalhadores e estão presentes em sectores estratégicos como energia, transportes e indústria. No entanto, a concentração de lucros em tão poucas mãos expõe fragilidades estruturais que precisam de ser resolvidas.
A dependência excessiva de duas empresas para sustentar um sector inteiro não é um fenómeno exclusivo de Angola. Em vários países africanos, casos semelhantes já foram documentados. Nesses contextos, a solução passou muitas vezes pela diversificação das fontes de receita e pela implementação de reformas estruturais. O objectivo é reduzir a vulnerabilidade a choques externos e garantir que o sector empresarial público possa gerar resultados positivos de forma sustentável.
O IGAPE, enquanto entidade responsável pela gestão dos activos do Estado, tem vindo a alertar para a necessidade de modernizar o SEP. A instituição reconhece que, apesar dos números positivos de 2025, os desafios persistem. Em sectores como transportes e energia, muitas empresas públicas enfrentam problemas crónicos de gestão, falta de investimento e concorrência desleal por parte de empresas privadas mais ágeis.
A Sonangol e a Unitel, embora tenham desempenhado um papel crucial em 2025, não podem ser vistas como soluções definitivas para os problemas do SEP. A petrolífera, por exemplo, tem vindo a enfrentar dificuldades em diversificar as suas fontes de receita, dependendo ainda demasiado do petróleo bruto. A Unitel, por sua vez, opera num sector altamente competitivo, onde a inovação tecnológica é constante e os custos de manutenção das infraestruturas são elevados.
Para inverter esta tendência, especialistas sugerem que o Estado angolano deve apostar em políticas públicas que incentivem a inovação e a eficiência nas empresas públicas. A transparência na gestão financeira e a adopção de práticas de governança corporativa são apontadas como passos essenciais. Além disso, a diversificação da economia angolana, reduzindo a dependência do petróleo, poderia aliviar parte da pressão sobre o SEP.
O relatório anual do IGAPE, que detalha os resultados de 2025, já está disponível no site da instituição. A publicação destes dados é um passo importante para a transparência e prestação de contas. No entanto, o desafio agora é transformar estes números positivos em acções concretas que garantam a sustentabilidade do sector a longo prazo.
Ainda não há sinais claros de que o Governo angolano esteja a preparar reformas profundas para o SEP. Até agora, as medidas anunciadas têm sido pontuais e não abordam a raiz dos problemas. Enquanto isso, o sector continua a depender de um punhado de empresas para sobreviver, correndo o risco de repetir os mesmos erros do passado.
A história mostra que a dependência excessiva de um número reduzido de empresas ou sectores pode levar a crises profundas quando as condições mudam. Em Angola, a lição parece clara: sem reformas estruturais e diversificação económica, o SEP continuará vulnerável a choques externos e incapaz de gerar resultados consistentes por si só.
O futuro do Sector Empresarial Público angolano depende, assim, de decisões que ainda não foram tomadas. Até lá, os números de 2025 serão recordados como uma excepção, e não como o início de uma nova era de prosperidade para as empresas públicas do país.
Fonte: Expansão
encontraste algum erro nesta notícia?
