PIB angolano cresce 5,7% mas população sente pouco impacto
O Governo angolano anunciou um crescimento económico de 5,7% no ano passado, com inflação controlada e receitas públicas em alta. Os números oficiais mostram um saldo orçamental positivo, mas nas ruas a realidade é outra. Salários baixos, desemprego elevado e serviços públicos deficitários mantêm a maioria dos angolanos longe dos benefícios do crescimento.

O Executivo angolano publicou recentemente os dados oficiais sobre a execução orçamental do último ano. Os números revelam um cenário económico positivo: o Produto Interno Bruto (PIB) registou um crescimento de 5,7%, a inflação ficou abaixo das previsões iniciais e as receitas do Estado aumentaram. Além disso, o saldo orçamental terminou o período com um excedente de 218 mil milhões de kwanzas. Em teoria, estes indicadores seriam suficientes para comemorar. Afinal, um crescimento económico robusto costuma traduzir-se em mais empregos, salários melhores e serviços públicos mais eficientes.
No entanto, a experiência dos cidadãos conta uma história diferente. Nas províncias e nos musseques da capital, a vida continua marcada pela escassez de oportunidades. O desemprego mantém-se em níveis preocupantes, especialmente entre os jovens, que representam grande parte da população angolana. Os salários, quando existem, raramente ultrapassam o valor mínimo necessário para cobrir despesas básicas como alimentação, transporte e habitação. A saúde pública enfrenta falta de medicamentos e infraestruturas degradadas, enquanto as escolas lutam com turmas superlotadas e professores mal pagos.
O problema não reside nos números em si, mas na forma como são distribuídos. Um crescimento económico forte deveria, em teoria, criar empregos formais, aumentar o poder de compra e melhorar a qualidade dos serviços públicos. Em Angola, porém, essa relação parece quebrada. Os dados económicos positivos não chegam a quem mais precisa, como se houvesse uma barreira invisível a separar os números das realidades das famílias.
Os especialistas ouvidos sobre o tema costumam destacar que o crescimento económico, por si só, não garante desenvolvimento social. Outros países africanos já passaram por situações semelhantes no passado, onde o PIB subia enquanto a pobreza persistia. Nestes casos, a solução passou por políticas públicas direccionadas, como investimentos em sectores estratégicos e programas de formação profissional. Angola já experimentou algumas destas abordagens, mas os resultados ainda não são visíveis para a maioria da população.
A questão central não é, portanto, questionar se a economia angolana está a crescer. A dúvida que permanece é por que razão os benefícios desse crescimento não chegam às ruas. Os relatórios económicos não oferecem respostas claras. Enquanto isso, milhões de angolanos continuam a viver com menos de dois dólares por dia, segundo estimativas de organizações internacionais. A pobreza não se mede apenas em números, mas em privações diárias: falta de água potável, dificuldade em aceder a cuidados médicos básicos e transporte público caro e ineficiente.
O Governo argumenta que os investimentos em infraestruturas e a diversificação da economia, com foco em sectores como agricultura e indústria, são passos necessários para reverter este cenário. No entanto, os prazos para que estes projectos se concretizem e surtam efeito ainda são longos. Enquanto isso, a população continua à espera de mudanças tangíveis. A inflação controlada, por exemplo, não impede que os preços dos alimentos subam constantemente, afectando directamente o orçamento das famílias mais pobres.
Outro ponto crítico é a desigualdade regional. Enquanto algumas províncias beneficiam de investimentos em sectores como o petróleo ou a mineração, outras permanecem esquecidas. A falta de oportunidades nestas áreas leva muitos jovens a migrar para as cidades em busca de trabalho, agravando os problemas de habitação e segurança nos centros urbanos. A concentração de riqueza em poucos sectores económicos também contribui para que o crescimento não se distribua de forma equitativa.
A sociedade civil tem vindo a pressionar por maior transparência na aplicação dos recursos públicos. Organizações não-governamentais e analistas económicos defendem que os excedentes orçamentais deveriam ser canalizados para programas sociais, como bolsas de estudo, subsídios à habitação e apoio a pequenos agricultores. No entanto, a implementação destas medidas enfrenta desafios burocráticos e falta de coordenação entre as várias esferas do Governo.
O próximo passo, segundo alguns economistas, passa por uma reforma estrutural que garanta que o crescimento económico se traduza em desenvolvimento humano. Isso inclui não só políticas de emprego e salários dignos, mas também melhorias nos serviços públicos, como saúde e educação. A experiência de outras nações mostra que, sem estas mudanças, o crescimento económico pode tornar-se num ciclo vicioso, onde os números melhoram, mas a vida das pessoas permanece igual.
Até lá, a população angolana continua a viver a dualidade entre os números oficiais e a realidade do dia-a-dia. Os dados económicos positivos são um sinal de que o país está no caminho certo, mas falta transformar essa trajectória em melhorias concretas para quem mais precisa. Enquanto isso não acontecer, o crescimento de 5,7% no PIB continuará a ser apenas um número para muitos angolanos.
Fonte: Expansão
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