KPMG analisa avanços e limites dos pagamentos digitais em Angola
A consultora internacional KPMG publicou um estudo detalhado sobre o crescimento dos pagamentos digitais em Angola. A pesquisa analisa como as transações financeiras electrónicas estão a ganhar espaço no país, mas também os desafios que ainda travam a sua expansão. O documento destaca o papel das fintechs e das políticas do Banco Nacional de Angola neste processo.

O relatório da KPMG surge num momento em que Angola tenta reduzir a dependência do dinheiro físico nas transações do dia a dia. Segundo o estudo, as soluções de pagamento móvel e a digitalização dos serviços bancários estão a transformar a forma como os angolanos lidam com o dinheiro. Antes restritos a quem tinha acesso a agências bancárias, os serviços financeiros começam agora a chegar a quem vive em zonas mais afastadas dos centros urbanos, graças a plataformas digitais adaptadas à realidade local.
A pandemia de Covid-19 serviu como um acelerador neste processo. Com a necessidade de evitar contactos físicos, muitos angolanos passaram a usar meios de pagamento sem contacto, desde transferências móveis até cartões electrónicos. O estudo da KPMG sublinha que esta mudança de hábitos não foi apenas temporária: mesmo após o fim das restrições, a preferência pelos pagamentos digitais manteve-se, mostrando que a população adoptou novas formas de lidar com o dinheiro.
Um dos principais benefícios apontados no relatório é a inclusão financeira. Em Angola, milhões de pessoas nunca tiveram acesso a contas bancárias tradicionais, seja por falta de agências nas suas comunidades ou por não cumprirem os requisitos mínimos. As carteiras digitais e as aplicações móveis mudaram este cenário, permitindo que muitos angolanos façam transferências, paguem contas e até recebam salários sem precisar de deslocar-se a uma instituição financeira. No entanto, o estudo lembra que este avanço ainda é desigual: enquanto em Luanda e nas principais cidades a adesão é maior, em zonas rurais e bairros periféricos, a realidade é outra.
A infraestrutura de telecomunicações e a literacia digital surgem como os maiores obstáculos à expansão dos pagamentos digitais. Em muitas regiões, a cobertura de internet móvel é instável ou inexistente, o que torna impossível usar aplicações de pagamento. Além disso, a falta de electricidade fiável em algumas áreas limita o funcionamento de terminais de pagamento ou carregamento de telemóveis, obrigando as pessoas a deslocarem-se a locais com energia para recarregar os seus dispositivos. Estes problemas reflectem um desafio mais amplo do país: a necessidade de melhorar as condições básicas para que a inovação tecnológica possa chegar a todos.
O Banco Nacional de Angola (BNA) tem um papel central neste processo. A instituição tem vindo a promover regulamentações que incentivam a digitalização dos pagamentos e a redução do uso de dinheiro físico. Uma das medidas mais conhecidas é a obrigatoriedade de os estabelecimentos comerciais aceitarem pagamentos electrónicos, independentemente do seu tamanho. O BNA também tem trabalhado para criar um ambiente mais seguro para as transações digitais, combatendo fraudes e garantindo que os utilizadores confiem nestes novos métodos.
As fintechs angolanas estão a liderar a inovação neste sector. Empresas locais desenvolveram soluções adaptadas às necessidades do mercado, como aplicações para pagamento de contas de água e luz, transferências entre utilizadores e até microcréditos através do telemóvel. Estas empresas têm a vantagem de conhecerem melhor as realidades do país, criando produtos que respondem a problemas específicos, como a falta de acesso a serviços bancários formais. No entanto, o estudo da KPMG alerta que, para estas empresas crescerem, é preciso um ecossistema mais robusto, com menos burocracia e mais apoio a quem quer investir no sector.
O futuro dos pagamentos em Angola depende, segundo o relatório, da colaboração entre bancos tradicionais e fintechs. Enquanto os bancos têm a estrutura e a regulamentação necessárias, as fintechs trazem a inovação e a flexibilidade para chegar a públicos que os bancos não conseguem atingir. Esta parceria já está a dar frutos em vários países africanos, onde a combinação de instituições financeiras estabelecidas e startups tecnológicas levou a um aumento significativo da inclusão financeira. Em Angola, este modelo começa a ganhar força, mas ainda há muito trabalho pela frente.
Para os investidores e decisores políticos, o estudo da KPMG serve como um guia para entender onde estão as oportunidades e os riscos no sector dos pagamentos digitais. O documento destaca que, embora o país tenha feito progressos, ainda há desafios estruturais que precisam de ser resolvidos. A melhoria das infraestruturas, a formação da população em literacia digital e o apoio às fintechs são apontados como prioridades. Sem estas mudanças, o potencial dos pagamentos digitais em Angola pode não ser totalmente aproveitado.
O relatório termina com uma mensagem clara: o caminho para uma economia mais digital em Angola passa pela inovação, mas também pela resolução de problemas básicos. Enquanto muitos angolanos já beneficiam das vantagens dos pagamentos electrónicos, milhões ainda esperam por um acesso mais justo e estável a estes serviços. O desafio agora é transformar o progresso actual em algo duradouro, que beneficie toda a população.
Fonte: Google News (Angola)
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