Regulamento do café não chega para reerguer produção angolana
Angola anunciou novas regras para exportar café, mas a produção nacional continua longe dos tempos áureos. O decreto presidencial publicado recentemente tenta melhorar a qualidade e os preços do produto no exterior, mas especialistas dizem que a medida não resolve os problemas estruturais que mantêm a colheita em níveis residuais. Há décadas, o país já foi um dos maiores exportadores mundiais de café, mas hoje a produção não chega a 5% do que já foi.

O Executivo angolano publicou um decreto no final de julho para regular as exportações de café verde. A intenção é clara: garantir que o produto angolano chegue ao mercado internacional com qualidade certificada e preços mínimos definidos. A medida surge depois de anos em que o café angolano foi vendido a valores baixos, muitas vezes sem qualquer garantia de origem ou padrão. No entanto, o regulamento não toca nos principais problemas que travam a produção local há décadas.
Nos anos 60 e 70, Angola era um dos maiores produtores de café do mundo. Hoje, a situação mudou radicalmente. A colheita atual representa menos de 5% do que já foi produzido no passado. Os motivos são conhecidos: falta de investimento em maquinaria moderna, técnicas de cultivo desatualizadas e escassez de mão-de-obra qualificada. Muitos dos antigos cafezais estão abandonados ou subaproveitados, enquanto os que ainda produzem enfrentam dificuldades para competir no mercado global.
O novo regulamento tenta organizar um sector que continua fragmentado. Muitos pequenos produtores não têm acesso a informações sobre preços internacionais ou padrões de qualidade exigidos pelos compradores. Além disso, o decreto estabelece um sistema mais rigoroso para controlar as exportações e evitar fraudes, um problema que já afetou a reputação do café angolano no exterior. Mesmo com estas mudanças, especialistas alertam que o impacto será limitado enquanto os problemas de fundo não forem resolvidos.
O director-geral do Instituto do Café de Angola já admitiu que a recuperação da produção vai demorar anos. Enquanto isso, o mercado internacional mostra cada vez mais interesse em café angolano de qualidade. Cafés de origem africana, especialmente os produzidos em países como a Etiópia ou o Quénia, têm ganho espaço em lojas especializadas e plataformas online. No entanto, Angola ainda não consegue responder a essa procura, mesmo com a nova legislação.
A falta de infraestruturas adequadas é outro entrave. Muitos dos antigos engenhos de processamento estão danificados ou desativados, obrigando os produtores a vender o café em estado bruto e a preços baixos. A mão-de-obra qualificada também é escassa, já que muitos trabalhadores migraram para outros sectores ou países durante os anos de crise. Sem investimento em formação e modernização, a produção dificilmente vai recuperar.
Outros países africanos já enfrentaram situações semelhantes e tomaram medidas para reerguer os seus sectores cafeeiros. Em alguns casos, programas de apoio aos pequenos produtores e parcerias com empresas internacionais ajudaram a relançar a indústria. Em Angola, porém, o cenário é mais complexo. A instabilidade económica dos últimos anos, aliada à falta de políticas consistentes, tornou o sector ainda mais vulnerável.
O novo regulamento também tenta criar um ambiente mais transparente para os compradores internacionais. Cafés sem certificação ou origem duvidosa já prejudicaram a imagem do produto angolano no passado. Com preços mínimos definidos e exigências de qualidade, o Governo espera atrair mais investidores e melhorar a confiança no café nacional. Contudo, sem resolver os problemas de produção, o impacto pode ser limitado.
Ainda assim, há sinais de que o sector começa a despertar. Alguns produtores já estão a modernizar as suas técnicas, enquanto organizações não governamentais tentam capacitar trabalhadores rurais. O desafio, porém, é grande. A recuperação de um sector agrícola leva tempo, especialmente quando os problemas se acumulam há décadas.
Enquanto isso, os consumidores internacionais continuam a procurar cafés únicos e de qualidade. O café angolano, com o seu sabor característico, tem potencial para se destacar. Mas, para isso, é preciso mais do que um regulamento. É necessário investimento, formação e uma estratégia a longo prazo que coloque a produção nacional no patamar que já teve um dia.
O director-geral do Instituto do Café de Angola já admitiu que a recuperação vai ser gradual. Até lá, o café angolano continua a ser uma promessa não cumprida, com um mercado internacional interessado, mas uma oferta local que ainda não consegue acompanhar.
Fonte: Expansão
encontraste algum erro nesta notícia?
