Angola quer atrair 500 milhões de euros com mercado de carbono
A Associação Angolana do Mercado de Carbono anunciou um plano para captar mais de 500 milhões de euros em investimentos verdes até ao final do ano. A meta, revelada esta semana, passa por transformar projectos ambientais em activos financeiros atractivos para empresas e governos internacionais. O objectivo é reduzir emissões poluentes enquanto atrai divisas para o país.

O projecto arranca com 25 iniciativas espalhadas por todo o território nacional, focadas em três áreas principais: protecção das florestas, conservação dos mangais e redução da queima de gás na indústria petrolífera. Cada uma destas acções será convertida em créditos de carbono, que poderão ser comprados por grandes empresas ou governos para compensar as suas emissões poluentes. O modelo funciona como um mercado onde quem polui paga para financiar quem reduz ou captura gases com efeito de estufa.
Para tornar este sistema viável, a associação propõe a criação de uma plataforma nacional dedicada ao registo e certificação destes créditos. A estrutura terá de garantir transparência nos processos, evitando que projectos sem impacto real sejam comercializados. O sistema de monitorização será crucial para manter a credibilidade do mercado e atrair investidores internacionais.
O mercado de carbono não é uma novidade no mundo. Outros países africanos já adoptaram modelos semelhantes nos últimos anos, embora com resultados variados. Em Moçambique, por exemplo, projectos de reflorestamento já permitiram a venda de créditos para empresas europeias. Já na África do Sul, o sector enfrenta desafios devido à falta de regulamentação clara. Angola tem agora a oportunidade de aprender com estas experiências e evitar erros comuns.
A iniciativa surge num momento em que a pressão internacional sobre emissões aumenta. A União Europeia, principal destino dos créditos angolanos, já anunciou que só aceitará créditos de países com sistemas de verificação rigorosos. Por isso, a transparência será um factor decisivo para o sucesso do projecto. Sem uma legislação específica, o mercado pode não descolar, mesmo com projectos promissores.
A indústria petrolífera angolana tem um papel central neste plano. A queima de gás associada à extracção de petróleo é uma das principais fontes de emissões no país. Reduzir este desperdício não só diminui a poluição como pode gerar receitas adicionais para as empresas. Projectos piloto em outras regiões do mundo mostram que esta abordagem pode ser economicamente viável.
Os mangais são outro foco importante. Estas florestas costeiras capturam carbono a uma taxa até cinco vezes superior à das florestas terrestres. A sua preservação não só ajuda a combater as alterações climáticas como protege a biodiversidade local. Em países como a Indonésia, a destruição destes ecossistemas já levou à perda de milhões de dólares em oportunidades de créditos de carbono.
A protecção das florestas nacionais também será prioritária. Angola tem uma das maiores áreas florestais da África Austral, mas a desflorestação ilegal continua a ser um problema. Projectos de reflorestamento e gestão sustentável podem reverter esta tendência. Em países como o Quénia, iniciativas semelhantes já demonstraram que é possível aliar conservação ambiental a desenvolvimento económico.
O sucesso do mercado angolano dependerá de vários factores. Em primeiro lugar, será necessário um enquadramento legal claro que defina regras para a emissão, certificação e comercialização dos créditos. Sem esta base, os investidores hesitarão em comprometer recursos. Países como o Gana e a Costa do Marfim já avançaram com legislação própria, mas os resultados ainda estão a ser avaliados.
Outro desafio será a formação de técnicos locais capazes de gerir o sistema. A falta de mão-de-obra qualificada pode atrasar o lançamento do mercado. Em casos semelhantes noutros continentes, a dependência de consultores estrangeiros acabou por encarecer os projectos e reduzir a sua viabilidade.
A participação do sector privado será essencial. Empresas angolanas de diversos ramos poderão beneficiar ao vender créditos de carbono ou ao implementar projectos que reduzam as suas próprias emissões. O governo já manifestou interesse em incentivar esta participação, embora ainda não tenham sido anunciados detalhes sobre apoios fiscais ou financeiros.
A comunidade internacional tem mostrado abertura para financiar iniciativas verdes em África. O Banco Mundial e outras instituições já disponibilizaram fundos para projectos de carbono em vários países. Angola poderá aceder a estas linhas de crédito, mas terá de demonstrar capacidade de gestão e transparência.
O timing da iniciativa é favorável. A crise climática está no topo da agenda global, e os mercados de carbono estão em expansão. Outros países africanos já conseguiram captar centenas de milhões de dólares através deste modelo. Angola tem agora a oportunidade de se posicionar como um novo actor neste sector em crescimento.
O projecto ainda está numa fase inicial, mas os primeiros passos já estão a ser dados. Se os 25 projectos iniciais forem bem-sucedidos, o mercado poderá expandir-se rapidamente. O objectivo de 500 milhões de euros em investimentos não é ambicioso demais para um país com recursos naturais tão valiosos. O desafio será transformar este potencial em realidade.
Ainda há muitas incertezas pela frente. A falta de legislação específica pode atrasar o lançamento do mercado. Além disso, a instabilidade nos preços dos créditos de carbono no mercado internacional pode afectar a rentabilidade dos projectos. No entanto, o interesse global em soluções verdes oferece uma janela de oportunidade que Angola não pode desperdiçar.
Fonte: Expansão
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