Mais de 10 milhões empregados em Angola, mas maioria informal
O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou que Angola conta com mais de 10 milhões de pessoas empregadas no segundo trimestre do ano. No entanto, a maior parte destes trabalhadores atua no sector informal, sem acesso a direitos laborais ou proteção social. A situação expõe a fragilidade do mercado de trabalho angolano, mesmo em períodos de crescimento económico moderado.

O mercado laboral angolano enfrenta um paradoxo: embora o número de pessoas empregadas ultrapasse os 10 milhões, a maioria destes postos de trabalho não oferece qualquer tipo de segurança. Segundo dados oficiais, cerca de 60% dos trabalhadores angolanos operam no sector informal, onde não existem contratos formais nem benefícios como férias pagas ou segurança social. Este cenário afecta directamente milhões de famílias que dependem de rendimentos diários para sobreviver, sem margem para poupanças ou proteção em caso de crises económicas.
A informalidade em Angola não é um fenómeno recente, mas os números recentes mostram que o problema se mantém estrutural. Actividades como comércio ambulante, prestação de serviços domésticos e pequenas vendas em mercados continuam a ser os principais pilares deste sector. Nestes empregos, os trabalhadores não têm acesso a direitos básicos, como licenças médicas ou indemnizações por despedimento, o que os torna extremamente vulneráveis a flutuações económicas. Muitos destes profissionais sequer conseguem poupar para a velhice, dependendo unicamente do rendimento do dia para sobreviver.
A dificuldade em criar empregos formais no país está ligada a vários factores. Um deles é a burocracia excessiva associada ao registo de empresas e trabalhadores, que afasta muitos empreendedores do sector formal. Mesmo com programas governamentais a incentivar a formalização, os custos e a complexidade dos processos continuam a ser barreiras significativas. Em províncias mais afastadas da capital, a situação agrava-se, com o desemprego e a informalidade a persistirem como desafios diários para as populações.
Especialistas alertam que a falta de empregos formais contribui directamente para o aumento da pobreza e da desigualdade social. Sem proteção laboral, milhões de angolanos ficam à mercê de crises económicas, doenças ou desastres naturais. A ausência de uma rede de segurança social efectiva obriga muitas famílias a viver no limite, sem qualquer tipo de poupança para enfrentar imprevistos. Esta realidade afecta sobretudo os mais jovens e as mulheres, que muitas vezes encontram no sector informal a única oportunidade de trabalho.
O Governo tem tentado combater este problema através de medidas como a simplificação de processos burocráticos e o apoio a micro e pequenas empresas. No entanto, os resultados ainda não são visíveis na maioria das províncias. A burocracia continua a ser um entrave, e muitos empreendedores preferem manter-se na informalidade para evitar os custos e a complexidade do registo formal. Esta escolha, embora compreensível, perpetua um ciclo de precariedade que prejudica o desenvolvimento económico do país.
Em comparação com outros países africanos, Angola não é o único a enfrentar este desafio. Muitos países da região também registam taxas elevadas de informalidade, embora com abordagens distintas. Alguns governos já implementaram programas de formalização com sucesso, combinando incentivos fiscais com campanhas de sensibilização. Outros optaram por simplificar os processos de registo, reduzindo os custos e o tempo necessário para formalizar uma empresa. Em Angola, a adopção de medidas semelhantes poderia ajudar a inverter a tendência actual.
A informalidade não afecta apenas os trabalhadores, mas também o Estado. Sem trabalhadores formais, o governo perde receitas fiscais significativas, o que limita a capacidade de investimento em áreas como saúde, educação e infra-estruturas. Além disso, a falta de proteção social obriga o Estado a gastar mais em programas de assistência, sobrecarregando as finanças públicas. Esta situação cria um ciclo vicioso, onde a informalidade perpetua a pobreza e a pobreza, por sua vez, alimenta a informalidade.
Para inverter este cenário, será necessário um esforço conjunto entre governo, empresas e sociedade civil. Programas de formação profissional poderiam ajudar a preparar os trabalhadores para empregos mais qualificados e formais. Ao mesmo tempo, campanhas de sensibilização poderiam mostrar os benefícios da formalização, tanto para os trabalhadores como para as empresas. A simplificação de processos burocráticos e a redução de custos também seriam passos importantes para incentivar a formalização.
Ainda assim, os desafios são muitos. A economia angolana depende fortemente de sectores como a agricultura e o comércio informal, que são difíceis de formalizar completamente. Além disso, a falta de infra-estruturas adequadas em muitas províncias dificulta a expansão de empregos formais. Mesmo assim, o caminho para a formalização é inevitável se o país quiser reduzir a pobreza e promover um desenvolvimento económico mais inclusivo.
Nos próximos meses, o Governo deverá apresentar novas medidas para incentivar a formalização. Entre as opções em discussão estão a redução de impostos para pequenas empresas e a criação de plataformas digitais para simplificar os processos de registo. Se implementadas com sucesso, estas medidas poderão começar a mudar a realidade de milhões de angolanos que ainda dependem do sector informal para sobreviver.
Fonte: Correio da Kianda
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