Banco ABC questiona tributação de imóveis recebidos por incumprimento
O Banco ABC enfrenta um problema crescente com financiamentos não pagos. Como consequência, recebeu vários imóveis através de dação em cumprimento. Agora, a instituição bancária debate-se com uma dúvida: esses imóveis estão sujeitos ao Imposto Predial?

O aumento dos incumprimentos em empréstimos bancários tem vindo a afectar várias instituições financeiras em Angola. Quando um cliente não cumpre com as suas obrigações, o credor pode optar por receber um imóvel como forma de pagamento da dívida. Este processo, conhecido como dação em cumprimento, transfere a propriedade do bem para o banco sem necessidade de leilão ou venda forçada. No entanto, surge uma questão fiscal: o que acontece com o Imposto Predial nestes casos?
O Imposto Predial é uma taxa anual aplicada a todos os proprietários de imóveis em Angola. O valor a pagar depende do valor do imóvel ou do seu valor patrimonial tributário, consoante o que for maior. Quando um banco adquire um imóvel por dação em cumprimento, passa a ser o novo proprietário e, por isso, responsável pelo pagamento deste imposto. A dúvida surge porque, em muitos casos, os bancos não têm interesse em manter esses bens e procuram vendê-los rapidamente para recuperar parte do valor emprestado.
A legislação angolana não é clara quanto à aplicação do Imposto Predial nestas situações. Enquanto alguns especialistas defendem que o imposto deve ser pago com base no valor da transmissão, outros argumentam que deve ser calculado sobre o valor patrimonial do imóvel. Esta incerteza tem levado várias instituições financeiras a procurar orientação junto da Administração Geral Tributária (AGT) para evitar problemas futuros com as autoridades fiscais.
A prática de receber imóveis por incumprimento não é exclusiva do Banco ABC. Outros bancos em Angola já adoptaram esta estratégia para minimizar as perdas com créditos malparados. Nos últimos anos, o sector bancário tem registado um aumento significativo dos casos de incumprimento, especialmente em financiamentos para aquisição de habitação e para pequenas e médias empresas. Esta situação reflecte, em parte, o impacto da crise económica que o país atravessa, com o desemprego a subir e os rendimentos das famílias a diminuir.
A falta de clareza na legislação tributária agrava a situação. Muitos bancos optam por pagar o Imposto Predial para regularizar a situação dos imóveis, mas questionam se não estão a ser penalizados duplamente: primeiro, pela perda do crédito, e depois, pelo pagamento de um imposto que não teriam de suportar se o imóvel fosse vendido rapidamente. Em alguns casos, os bancos conseguem vender os imóveis recebidos por dação em cumprimento com descontos significativos, mas o processo pode demorar meses ou até anos, dependendo do mercado imobiliário.
A situação do Banco ABC não é isolada. Em outros países africanos, instituições financeiras já enfrentaram problemas semelhantes. Em Moçambique, por exemplo, os bancos tiveram de adaptar os seus procedimentos para lidar com a tributação de imóveis recebidos por incumprimento. Na África do Sul, a legislação foi alterada para facilitar a venda destes bens e reduzir os custos associados. Estes casos mostram que a questão não é exclusiva de Angola, mas sim um desafio comum aos sistemas bancários em economias emergentes.
Para os bancos, a solução passa muitas vezes por vender os imóveis o mais rápido possível. No entanto, o mercado imobiliário angolano ainda enfrenta dificuldades, com pouca liquidez e preços em queda. Isto significa que os bancos podem não recuperar o valor total da dívida através da venda dos imóveis, mesmo que consigam vendê-los. Além disso, os custos de manutenção dos imóveis — como IMI, segurança e reparações — também pesam no balanço das instituições.
A Administração Geral Tributária tem vindo a acompanhar este fenómeno, mas ainda não emitiu orientações específicas sobre a tributação de imóveis recebidos por dação em cumprimento. Enquanto isso não acontece, os bancos continuam a actuar com base em interpretações próprias, correndo o risco de serem multados ou penalizados por irregularidades fiscais. A ausência de regras claras cria insegurança jurídica e pode desencorajar a concessão de novos créditos, especialmente em sectores mais arriscados.
A longo prazo, a solução poderá passar pela revisão da legislação tributária ou pela criação de mecanismos que facilitem a venda rápida dos imóveis recebidos por incumprimento. Até lá, os bancos terão de gerir este problema com os recursos disponíveis, equilibrando a necessidade de recuperar créditos com os custos associados à manutenção e tributação dos imóveis. Para os clientes, a situação também não é fácil: muitos vêem os seus bens serem apreendidos e vendidos a preços abaixo do mercado, enquanto outros ficam com dívidas pendentes mesmo após a perda da propriedade.
O caso do Banco ABC serve como exemplo de um problema maior no sector bancário angolano. Enquanto não houver uma resposta clara por parte das autoridades fiscais, a incerteza continuará a afectar tanto as instituições financeiras como os clientes. Até lá, a única certeza é que o Imposto Predial continuará a ser um tema de discussão entre bancos, advogados e especialistas em tributação.
Fonte: Expansão
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