Câmbio ilegal cresce em Angola por falta de emprego e divisas
A crise económica em Angola está a empurrar cada vez mais cidadãos para o mercado paralelo de câmbio. Sem emprego formal e com dificuldade em obter moeda estrangeira de forma legal, milhares de famílias recorrem a cambistas para sobreviver. Especialistas ouvidos esta semana afirmam que, enquanto não houver mudanças estruturais, esta prática ilegal continuará a ser a única saída para muitos.

Em Luanda e noutras províncias, a cena repete-se diariamente: filas de pessoas em frente a lojas ou bancas improvisadas, a negociar kwanzas por dólares ou euros. O que parece um simples acto de compra e venda esconde, na verdade, uma resposta desesperada a um problema que se arrasta há anos. A falta de emprego no mercado formal e a escassez de divisas oficiais obrigam muitos angolanos a procurar alternativas, mesmo sabendo dos riscos que envolvem o câmbio ilegal.
Este circuito paralelo não é novo, mas tem vindo a ganhar força nos últimos tempos. Quem mais sofre são aqueles que dependem de importações ou de remessas do exterior para sobreviver. Sem acesso fácil a moeda estrangeira nos bancos, muitos optam por pagar um preço mais alto aos cambistas, apenas para garantir o essencial no dia a dia. A prática é ilegal, mas para muitos, é a única forma de colocar comida na mesa ou pagar contas básicas.
O Governo angolano tem tentado combater este mercado, mas as tentativas esbarram em dois grandes obstáculos: a falta de liquidez no sistema bancário e a burocracia excessiva. Sem divisas suficientes para distribuir de forma controlada, o Estado vê-se obrigado a limitar o acesso à moeda estrangeira, empurrando ainda mais pessoas para o circuito informal. Enquanto isso, a dependência de actividades informais, como o comércio ambulante ou serviços sem registo, agrava o problema, criando um ciclo difícil de quebrar.
Analistas económicos explicam que a solução não passa apenas por policiar o mercado paralelo, mas sim por criar condições para que as pessoas tenham alternativas legais. Políticas que incentivem o emprego formal e facilitem o acesso a divisas poderiam, aos poucos, reduzir a procura por câmbio ilegal. No entanto, enquanto a economia não recuperar e as oportunidades continuarem escassas, o cenário dificilmente mudará.
O problema não é exclusivo de Angola. Em vários países africanos, a falta de emprego e a dificuldade em obter divisas oficiais levaram ao crescimento de mercados paralelos semelhantes. Nesses casos, a solução passou por reformas económicas profundas, que incluíram a liberalização do câmbio e o incentivo ao sector privado. Em Angola, ainda não há sinais claros de que medidas desse tipo estejam a ser implementadas a curto prazo.
A população, entretanto, continua a adaptar-se. Muitos que antes trabalhavam em empresas formais agora sobrevivem do comércio informal ou de serviços avulsos. Outros recorrem a familiares no exterior para receberem remessas, que depois convertem em kwanzas através de cambistas. A prática, embora arriscada, tornou-se uma rotina para quem não tem outra opção.
As autoridades já alertaram várias vezes para os perigos do câmbio ilegal, que pode levar a fraudes, perdas financeiras e até mesmo a processos judiciais. No entanto, enquanto a economia não oferecer alternativas viáveis, o mercado paralelo continuará a ser uma realidade para milhares de angolanos. A pergunta que muitos fazem é: até quando?
Para especialistas, a resposta depende de acções concretas do Governo. Sem uma estratégia clara para criar emprego e facilitar o acesso a divisas, o problema tende a agravar-se. Enquanto isso, as famílias angolanas continuam a viver à margem do sistema, dependendo de soluções que, embora ilegais, são a única forma de garantir o sustento diário.
A situação reflecte um cenário mais amplo, que afecta não só quem precisa de moeda estrangeira, mas também toda a economia do país. A falta de divisas oficiais limita o crescimento de empresas, dificulta as importações e prejudica quem depende de produtos estrangeiros. Sem uma mudança de rumo, o câmbio ilegal permanecerá como uma sombra sobre a economia angolana, alimentando um ciclo que parece não ter fim à vista.
Enquanto não houver uma recuperação económica consistente e mais oportunidades no sector formal, o mercado paralelo continuará a ser uma realidade. A solução, segundo os especialistas, passa por políticas que incentivem o emprego e tornem o acesso a divisas mais fácil e transparente. Até lá, milhões de angolanos terão de continuar a viver à margem do sistema, dependendo de soluções que, embora ilegais, são a única forma de sobreviver.
Fonte: Correio da Kianda
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