Seguro agrícola em Angola trava por falta de informação
Apenas cinco em cada cem agricultores angolanos sabem como funciona o seguro agrícola. O desconhecimento generalizado mantém a maioria das pequenas explorações expostas a secas e inundações. Os dados são de um estudo da consultora Dalberg, apresentado na quarta-feira, 22 de Julho, em seis províncias do país.

O levantamento feito pela Dalberg abrangeu produtores de Malanje, Cuanza Sul, Huambo, Benguela, Bié e Huíla. Os resultados mostram que a falta de literacia financeira e a escassa oferta de produtos no mercado deixam 95% das terras agrícolas desprotegidas contra fenómenos climáticos extremos. Sem mecanismos de cobertura, os camponeses ficam à mercê de perdas que podem arruinar anos de trabalho no campo.
Apesar do cenário preocupante, o estudo revela um desejo claro por soluções de proteção. Quatro em cada cinco agricultores inquiridos afirmaram que adeririam a um seguro agrícola indexado, desde que os valores fossem compatíveis com os seus rendimentos. A vontade existe, mas a realidade mostra um fosso entre a necessidade e a oferta disponível.
A agricultura continua a ser um pilar fundamental para diversificar a economia angolana. No entanto, a ausência de garantias financeiras deixa o sector vulnerável a crises climáticas cada vez mais frequentes. Secas prolongadas e chuvas intensas já destroem colheitas e deixam famílias sem alimentos nem sementes para o próximo ciclo. Sem proteção, muitos produtores não conseguem reinvestir no ano seguinte, perpetuando um ciclo de pobreza rural.
A falta de informação direta e a reduzida presença de serviços financeiros nas zonas rurais agravam ainda mais a situação. Em muitas comunidades, os agricultores dependem de poupanças precárias ou de empréstimos informais para recuperar de perdas. Quando as colheitas falham, as dívidas acumulam-se e as famílias são obrigadas a reduzir refeições ou a vender equipamentos essenciais.
O problema não é exclusivo de Angola. Em vários países africanos, a baixa adesão a seguros agrícolas deve-se à mesma combinação de desconhecimento e falta de acesso. Em alguns casos, governos e organizações internacionais já implementaram programas piloto para testar modelos de seguro indexado, onde o pagamento é ativado automaticamente após eventos climáticos medidos por satélite ou estações meteorológicas. Essas experiências mostram que, quando a informação chega às comunidades e os preços são ajustados, a adesão pode aumentar significativamente.
Em Angola, o desafio passa por dois pontos principais: levar o conhecimento até aos camponeses e criar produtos financeiros que se adaptem às suas realidades. As cooperativas agrícolas poderiam ser aliadas nesse processo, funcionando como pontes entre as seguradoras e os produtores. Além disso, campanhas de esclarecimento nas rádios comunitárias e em feiras rurais poderiam ajudar a desmistificar o funcionamento dos seguros.
O Governo angolano já incluiu a promoção do seguro agrícola no seu plano de desenvolvimento rural. No entanto, a implementação prática ainda enfrenta obstáculos, como a burocracia e a falta de infraestruturas de monitorização climática em algumas regiões. Sem dados precisos sobre padrões de chuva e seca, é difícil para as seguradoras calcular riscos e definir preços justos.
A segurança alimentar do país depende em grande parte da resiliência dos pequenos agricultores. Sem proteção contra perdas, o sector não consegue crescer de forma sustentável. A médio prazo, a falta de adesão ao seguro agrícola pode agravar a dependência de importações de alimentos, pressionando ainda mais a balança comercial.
A solução não é imediata, mas os primeiros passos já estão a ser dados. A Dalberg recomenda que o foco seja colocado na educação financeira e na simplificação dos produtos. Enquanto isso, os agricultores continuam a trabalhar com incerteza, contando apenas com a sorte para escapar aos caprichos do clima. A esperança é que, num futuro próximo, a proteção financeira chegue a quem mais precisa: aqueles que alimentam o país.
Fonte: Expansão
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