Angola debate segurança digital após ataque à Unitel
O recente ciberataque sofrido pela Unitel, a maior operadora de telecomunicações de Angola, expôs as fragilidades dos sistemas de proteção digital no país. Especialistas alertam que a dependência de consultores estrangeiros para garantir a segurança de infraestruturas críticas pode agravar os riscos de novos incidentes.

O ataque informático que atingiu a Unitel na semana passada deixou claro que Angola ainda enfrenta grandes desafios na proteção dos seus sistemas digitais. Segundo analistas do sector, a contratação de empresas e especialistas externos para reforçar a segurança de infraestruturas estratégicas nem sempre resolve os problemas — em muitos casos, até os agrava. A falta de autonomia técnica nacional deixa o país vulnerável a ataques coordenados por grupos com interesses económicos ou políticos, capazes de explorar falhas em sistemas geridos por terceiros.
A Unitel, que domina o mercado angolano de telecomunicações, não divulgou detalhes sobre a extensão do ataque. No entanto, fontes internas confirmaram que os serviços de dados e voz foram interrompidos durante várias horas, afectando milhares de utilizadores. O episódio serviu como um alerta para o Governo e para o sector privado, que agora discutem a necessidade de rever as políticas de cibersegurança em vigor.
A discussão ganha força num momento em que Angola tenta reduzir a sua dependência tecnológica externa. Especialistas defendem que o país deve investir na formação de quadros locais e na criação de um ecossistema tecnológico próprio, capaz de responder aos desafios actuais. A ideia não é nova: outros países africanos já tomaram medidas semelhantes no passado, apostando na formação de engenheiros e técnicos especializados para garantir a soberania digital.
A apresentação de um projecto de lei sobre cibersegurança na Assembleia Nacional veio reforçar o debate. O diploma, actualmente em análise parlamentar, propõe regras mais rígidas para a proteção de dados e infraestruturas críticas, obrigando as empresas a adoptarem padrões mínimos de segurança. No entanto, a sua aprovação ainda depende de um longo processo legislativo, que pode demorar meses ou até anos.
Para os analistas, a solução não passa apenas por legislação actualizada, mas por uma mudança de paradigma. A segurança digital não pode depender de assessores estrangeiros, que muitas vezes desconhecem as realidades locais e as ameaças específicas enfrentadas por Angola. Casos parecidos já aconteceram antes: em países onde a tecnologia depende demasiado de soluções externas, os ataques cibernéticos costumam ser mais frequentes e mais difíceis de combater.
O debate sobre a proteção de dados em Angola ganha novo fôlego com este caso. Enquanto o Governo não anuncia medidas concretas, a sociedade civil e o sector privado continuam a pressionar por acções que garantam a soberania tecnológica do país. A questão é urgente, especialmente num mundo onde as ameaças digitais não param de evoluir. A cada dia que passa sem uma resposta adequada, o risco de novos ataques aumenta.
A discussão não se limita às telecomunicações. Infraestruturas críticas como bancos, hospitais e redes eléctricas também dependem cada vez mais de sistemas digitais. Se um ataque pode paralisar uma operadora de telecomunicações durante horas, o que aconteceria se o alvo fosse uma central eléctrica ou um sistema bancário? A pergunta não é retórica: já aconteceu noutros países, onde a falta de preparação levou a prejuízos milionários e a crises de confiança por parte da população.
A solução passa, em primeiro lugar, por reconhecer que a segurança digital é uma prioridade nacional. Não se trata apenas de comprar equipamentos ou contratar serviços externos, mas de construir capacidades locais. Isso implica investir em educação, formação técnica e investigação, criando uma geração de profissionais capazes de lidar com os desafios do futuro.
Enquanto isso não acontece, Angola continua vulnerável. A Unitel não é a primeira empresa a ser alvo de um ciberataque em Angola, nem será a última. O problema é estrutural e exige uma resposta à altura. A pergunta que fica é: quando é que o país estará realmente preparado para enfrentar estas ameaças?
A sociedade civil já começou a mobilizar-se. Organizações não-governamentais e especialistas independentes têm vindo a exigir transparência e acção por parte das autoridades. Afinal, a segurança digital não é apenas um problema técnico — é uma questão de soberania e de proteção dos cidadãos.
O próximo passo cabe ao Governo. Se a legislação proposta avançar, Angola poderá dar um passo importante rumo à segurança digital. Mas isso não será suficiente. Sem investimento em formação e sem uma estratégia clara, o país continuará exposto a riscos desnecessários. A pergunta é: quanto tempo mais teremos de esperar até que as acções acompanhem as palavras?
Fonte: Correio da Kianda
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