Babacar Diagne critica uso político de 'fitna' no Senegal
O antigo director-geral da Rádio Televisão do Senegal, Babacar Diagne, publicou uma análise sobre a expressão ‘sa fitna’ usada pelo Presidente Bassirou Diomaye Faye. Para Diagne, a frase não deve ser reduzida a um ataque pessoal, mas interpretada como um alerta contra práticas que ameaçam a estabilidade democrática do país.

A polémica em torno da expressão ‘sa fitna’, proferida pelo chefe de Estado senegalês durante o lançamento do seu partido, continua a dividir opiniões. Enquanto alguns cidadãos interpretaram a frase como uma referência directa a um adversário político, outros viram nela um apelo à reflexão sobre os riscos que a democracia enfrenta quando o poder se distancia das regras estabelecidas.
Babacar Diagne, que liderou a principal estação de rádio e televisão do Senegal, defende que o debate deve transcender as disputas partidárias. Na sua óptica, ‘sa fitna’ representa um conjunto de comportamentos que, uma vez normalizados, corroem a confiança nas instituições e transformam a lei num instrumento de poder arbitrário. Para o jornalista, o problema não reside em saber quem foi alvo da expressão, mas sim no que ela revela sobre o estado actual da governação no país.
O antigo responsável pela RTS sublinha que a arbitrariedade, quando se sobrepõe à legislação, e o abuso de autoridade, quando substitui o funcionamento regular das instituições, são sinais claros de que o sistema democrático está a ser fragilizado. Em sociedades onde a força substitui o direito, os cidadãos deixam de acreditar que os seus direitos dependem de mecanismos colectivos e passam a depender da vontade de quem detém o poder.
Diagne argumenta que a expressão deve ser desvinculada do contexto político imediato e assumida como um património comum de todos os que defendem a República. Para ele, a verdadeira questão não é quem foi mencionado, mas sim como garantir que as instituições funcionem de forma independente e transparente. Nesse sentido, ‘sa fitna’ não deve ser vista como uma declaração ocasional, mas como um lembrete constante sobre a necessidade de proteger as liberdades públicas.
O alerta de Diagne reflecte uma preocupação crescente em várias democracias africanas, onde a concentração de poder e a marginalização das instituições têm gerado tensões sociais e políticas. Em casos semelhantes, a sociedade civil e os meios de comunicação têm desempenhado um papel crucial na fiscalização do poder, expondo práticas que ameaçam a estabilidade institucional.
A reflexão do antigo director-geral da RTS surge num momento em que o Senegal, como muitos outros países do continente, enfrenta desafios na consolidação da sua democracia. A forma como as lideranças políticas comunicam e agem pode influenciar directamente a percepção pública sobre a justiça e a equidade no acesso ao poder.
Para especialistas em governação, a discussão levantada por Diagne toca num ponto sensível: a diferença entre um discurso político e um compromisso com a ordem constitucional. Enquanto os políticos usam frequentemente a linguagem para mobilizar apoiantes ou descredibilizar adversários, a democracia exige que as palavras sejam acompanhadas por acções que reforcem o Estado de direito.
A publicação da análise de Diagne num meio de comunicação independente reforça a importância do jornalismo como ferramenta de fiscalização do poder. Em sociedades onde a informação nem sempre é acessível ou fiável, os profissionais dos media assumem a responsabilidade de questionar as narrativas oficiais e de apresentar alternativas que ajudem os cidadãos a formar opiniões informadas.
O debate sobre ‘sa fitna’ também coloca em evidência a necessidade de os líderes políticos assumirem um discurso que promova a unidade nacional, em vez de alimentar divisões. Em países com diversidade étnica e cultural, como o Senegal, a coesão social depende em grande medida da capacidade das instituições de garantir que todos os cidadãos se sintam representados e protegidos.
A longo prazo, a forma como o actual governo responde a este tipo de críticas pode definir o seu legado. Governos que ignoram os alertas sobre o enfraquecimento das instituições arriscam-se a minar a confiança da população e a criar condições para crises mais profundas no futuro.
Para os cidadãos, a reflexão de Diagne serve como um chamado à atenção. Num contexto onde as redes sociais amplificam tanto os discursos de ódio como as vozes críticas, cabe a cada indivíduo discernir entre o que é mera retórica política e o que representa um risco real para a democracia.
A discussão em torno de ‘sa fitna’ não é exclusiva do Senegal. Em várias regiões do mundo, a tensão entre o poder político e as instituições democráticas tem levado a protestos e a mudanças de governo. A forma como os países lidam com estas pressões pode servir de exemplo para outros que enfrentam desafios semelhantes.
No Senegal, a reacção da sociedade civil e dos meios de comunicação será determinante para o rumo que o país tomará. Se a expressão ‘sa fitna’ for assumida como um alerta colectivo, poderá tornar-se um marco na defesa da democracia. Caso contrário, corre-se o risco de normalizar práticas que, uma vez instaladas, são difíceis de reverter.
Fonte: Kéwoulo
encontraste algum erro nesta notícia?
