Angola gasta quase 500 mil milhões a mais com combustíveis importados
Em seis meses, Angola gastou 499 mil milhões de kwanzas a mais na importação de combustíveis do que em igual período do ano passado. Os dados mostram que, apesar do aumento das exportações de crude, os ganhos não compensaram o crescimento das despesas. O desequilíbrio reforça a fragilidade da gestão energética nacional.

O primeiro semestre de 2026 ficou marcado por um rombo nas contas angolanas relacionadas com combustíveis. Entre janeiro e junho, o país desembolsou 1,544 biliões de kwanzas na compra de petróleo, combustíveis e gás, um salto de 47,8% face aos 1,045 biliões gastos no mesmo período de 2025. Só esta rubrica representou 23,2% de todas as importações nacionais, um peso muito superior aos 14,6% registados no ano anterior. O cenário expõe uma dependência crescente de produtos refinados do exterior, mesmo quando o país é um dos maiores produtores de crude em África.
O problema não está apenas nos números absolutos. O aumento dos preços internacionais, impulsionado por conflitos como a guerra entre os Estados Unidos e o Irão, não se traduziu em benefícios proporcionais para Angola. As exportações de petróleo subiram de valor, mas o Estado angolano arrecadou apenas 203 mil milhões de kwanzas com essas vendas. Ou seja, o país gastou 499 mil milhões de kwanzas a mais com importações do que aquilo que ganhou com as exportações de crude. Esta diferença acende um alerta sobre a eficácia da estratégia energética nacional.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando se analisa a estrutura das importações. A maior parte dos combustíveis que chegam a Angola são produtos refinados, não crude bruto. Isso significa que o país continua a depender de infraestruturas estrangeiras para transformar o seu próprio petróleo em gasolina, diesel ou gás de cozinha. Especialistas ouvidos pela imprensa local destacam que este modelo mantém Angola vulnerável às oscilações do mercado global e à instabilidade política em regiões produtoras de petróleo.
A falta de refinarias locais capazes de processar o crude angolano é apontada como uma das principais causas deste desequilíbrio. Enquanto outros países africanos já avançaram com projetos para aumentar a capacidade de refinação, Angola ainda depende em grande medida de importações. A ausência de investimentos significativos nesta área mantém o país refém das flutuações de preços e das decisões de outros governos.
O governo angolano já havia reconhecido a necessidade de reduzir a dependência de combustíveis importados. Em anos anteriores, foram anunciadas metas para aumentar a produção local de derivados de petróleo, mas os resultados ainda não são visíveis. A crise energética global e a incerteza política em várias regiões produtoras de petróleo tornam o desafio ainda maior. Enquanto isso, os angolanos sentem o impacto no bolso: os preços dos combustíveis e os custos de transporte continuam a subir, afetando diretamente o custo de vida.
A situação atual não é exclusiva de Angola. Em outros países africanos, a dependência de importações de combustíveis tem levado a crises económicas e sociais. Casos semelhantes já foram registados em nações que, como Angola, são produtoras de crude mas não têm capacidade interna para refinar o seu próprio petróleo. A diferença é que muitos desses países já começaram a implementar políticas para inverter o cenário, enquanto Angola ainda debate os primeiros passos.
A urgência em diversificar a matriz energética angolana não pode ser ignorada. Além de reduzir a fatura das importações, o país precisa de garantir segurança energética para as suas indústrias e população. A transição para fontes renováveis, como a energia solar ou eólica, poderia ser uma alternativa, mas os projetos nesta área ainda são incipientes. Enquanto isso, a população continua a pagar o preço de uma política energética que não acompanha as necessidades do país.
O governo tem defendido que a solução passa pela atração de investimentos estrangeiros para a construção de novas refinarias. No entanto, a burocracia e a instabilidade regulatória têm afastado potenciais parceiros. A falta de transparência em alguns processos e a demora na aprovação de projetos também contribuem para que o país continue a importar a maior parte dos seus combustíveis.
Os reflexos desta dependência são visíveis no dia a dia dos angolanos. Os preços dos transportes públicos e privados subiram, assim como os custos de produtos que dependem do diesel para a sua distribuição. Pequenos negócios, como os de zungueiras e candongueiros, sentem o impacto nos seus lucros, enquanto as famílias têm de ajustar os seus orçamentos para lidar com a alta dos preços.
A médio prazo, a solução passa por um plano integrado que combine investimento em refinarias, diversificação energética e políticas públicas que incentivem a utilização de fontes alternativas. Até lá, Angola continuará a gastar biliões em importações que poderiam ser evitadas, enquanto os seus cidadãos arcam com as consequências. O tempo para agir é agora, antes que a situação se agrave ainda mais.
Fonte: Expansão
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