Angola atinge inflação abaixo de 10% pela primeira vez desde 2002
Pela primeira vez em mais de vinte anos, Angola regista uma inflação inferior a dois dígitos. Em julho, o índice oficial de preços ao consumidor fixou-se nos 9,33%, confirmando uma desaceleração acentuada nos custos de vida. A informação foi divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística esta semana, marcando um ponto de viragem na economia angolana.

A queda da inflação para valores de um dígito não acontecia desde 2002, quando o índice se situou nos 9,5%. Durante duas décadas, o país conviveu com taxas de inflação persistentemente altas, com períodos em que os preços subiram mais de 50% num único ano. Essa realidade reflectiu-se directamente no poder de compra da população, especialmente nos produtos essenciais que compõem a cesta básica. Agora, a quebra para 9,33% em julho surge como um sinal de alívio para os angolanos, ainda que a pressão sobre os orçamentos familiares continue a ser significativa.
O fenómeno não é exclusivo de Angola. Em várias economias africanas, a inflação tem vindo a moderar-se nos últimos anos, ainda que com ritmos distintos. A estabilização da moeda local e a redução nos preços dos alimentos estão entre os factores mais citados pelos analistas para explicar esta tendência. No caso angolano, a valorização do kwanza face ao dólar desempenhou um papel central. Nos últimos meses, a moeda nacional ganhou força após o Banco Nacional de Angola implementar medidas para conter a especulação cambial, um problema que durante anos agravou a inflação.
Os especialistas destacam que a queda nos preços dos alimentos foi determinante para o resultado de julho. Produtos como o arroz, o pão e o óleo vegetal, que há meses pressionavam os orçamentos das famílias, começaram a mostrar sinais de abrandamento nos seus valores. Ainda assim, o custo de vida mantém-se elevado para a maioria da população, que ainda sente os efeitos de anos de crise económica. A crise, agravada por factores externos como a pandemia e a guerra na Ucrânia, deixou marcas profundas na economia angolana, obrigando muitos agregados familiares a ajustar os seus hábitos de consumo.
A trajectória da inflação em Angola tem sido irregular ao longo das últimas décadas. Nos anos 2000, o país enfrentou taxas superiores a 30% em vários períodos, reflectindo não só a instabilidade económica interna, mas também choques externos. A dependência de importações, nomeadamente de bens alimentares e combustíveis, tornou o país vulnerável a flutuações nos mercados internacionais. Nos anos mais recentes, a crise cambial e a desvalorização do kwanza agravaram ainda mais a situação, levando a um aumento generalizado dos preços.
Para as famílias angolanas, a inflação sempre representou um desafio constante. O aumento dos preços dos produtos básicos afecta directamente o dia-a-dia, obrigando muitos a fazer escolhas difíceis na hora de comprar. A redução para valores abaixo dos 10% não significa, contudo, que o problema esteja resolvido. A maioria dos cidadãos continua a sentir o peso da inflação no bolso, especialmente aqueles que dependem de rendimentos fixos ou de empregos informais. A esperança é que a tendência de desaceleração se mantenha nos próximos meses, permitindo um alívio gradual na pressão sobre os rendimentos.
O governo angolano tem vindo a apostar em políticas para estabilizar a economia e reduzir a inflação. Além das medidas cambiais, têm sido implementadas iniciativas para aumentar a produção local de alimentos, reduzindo a dependência de importações. A meta é aproximar a inflação dos 7% até ao final do ano, um objectivo que, se alcançado, poderá trazer algum alívio para os cidadãos e criar um ambiente mais favorável ao investimento estrangeiro.
A redução da inflação é também vista como um passo importante para a recuperação económica do país. Com preços mais estáveis, as empresas podem planear melhor os seus investimentos, e os consumidores ganham confiança para gastar. No entanto, os desafios persistem. A economia angolana continua a depender fortemente do sector petrolífero, o que a torna vulnerável a choques nos preços internacionais do crude. Além disso, a diversificação da economia, um objectivo há muito anunciado, ainda não se reflectiu plenamente nos indicadores económicos.
A trajectória da inflação nos próximos meses será determinante para perceber se este é um ponto de viragem ou apenas uma pausa temporária. Se a tendência se mantiver, poderá sinalizar uma nova fase para a economia angolana, com maior estabilidade e previsibilidade. Até lá, as famílias continuam a contar os cêntimos e a procurar formas de fazer render o seu dinheiro. A inflação abaixo dos 10% é um avanço, mas o caminho para uma vida mais acessível ainda é longo.
Fonte: Google News (Angola)
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