Angola tem terras férteis por explorar e importa comida
Angola dispõe de 35 milhões de hectares de terras aráveis, mas apenas 6,2 milhões estão a ser cultivados. O ministro da Agricultura admitiu que o país desperdiça grande parte do seu potencial agrícola, o que limita o crescimento do sector e afeta a segurança alimentar. A falta de aproveitamento destas terras mantém Angola dependente de importações para alimentar a população.

O solo angolano tem condições ideais para a agricultura, mas menos de um quinto das terras disponíveis está a ser usado. Segundo dados oficiais, os 6,2 milhões de hectares actualmente cultivados representam apenas 17,7% do potencial total do país. Esta realidade reflecte-se na economia: o sector agrícola, apesar de ser um dos pilares do desenvolvimento nacional, enfrenta dificuldades estruturais que travam o seu crescimento.
A falta de infraestruturas adequadas é um dos principais obstáculos. Muitas regiões rurais não têm acesso a estradas em boas condições, o que encarece o transporte de produtos e desmotiva os agricultores. Além disso, o crédito agrícola é escasso e caro, dificultando o investimento em equipamentos e sementes de qualidade. Outro problema é a ausência de técnicas modernas de cultivo, que poderiam aumentar a produtividade sem necessidade de expandir a área plantada.
O Executivo tem anunciado programas para dinamizar o sector, mas os resultados ainda não são visíveis em larga escala. Especialistas do ramo alertam que, sem mudanças profundas, Angola continuará a depender de importações para suprir necessidades básicas. A exploração eficiente das terras disponíveis poderia reduzir esta dependência e criar emprego nas zonas rurais, onde a pobreza é mais acentuada.
O ministro da Agricultura reconheceu a urgência de inverter este cenário, mas não avançou com prazos ou metas concretas. A situação actual mostra que as políticas implementadas até agora não foram suficientes para resolver o problema. Enquanto isso, milhões de angolanos continuam a viver em áreas onde a terra fértil não é aproveitada, enquanto o país gasta milhões em divisas para comprar alimentos no estrangeiro.
A agricultura familiar, que emprega a maioria dos trabalhadores rurais, é a mais afectada por estas limitações. Muitos agricultores usam métodos tradicionais, com baixa produtividade, e não têm acesso a formação ou assistência técnica. A falta de armazenamento adequado também leva a perdas significativas após as colheitas, agravando o desperdício.
Em países com realidades semelhantes, a modernização do sector agrícola passou por investimentos em tecnologia e na formação de agricultores. Em Angola, no entanto, os avanços têm sido lentos. O governo já anunciou intenções de melhorar o acesso ao crédito e de introduzir maquinaria moderna, mas a execução destes planos ainda não se reflecte nos números.
A dependência de importações de alimentos não é apenas uma questão económica. Tem impacto directo na vida das famílias, especialmente nas zonas urbanas, onde os preços dos produtos básicos sobem quando há flutuações no mercado internacional. A segurança alimentar do país depende, em grande parte, da capacidade de produzir mais localmente.
A exploração das terras aráveis poderia também reduzir a pressão sobre as reservas de divisas, que são usadas para comprar alimentos no exterior. Além disso, o desenvolvimento do sector agrícola poderia criar empregos em regiões onde o desemprego é elevado, travando o êxodo rural para as cidades.
O governo já reconheceu que são necessárias medidas urgentes, mas a falta de acção coordenada entre as várias instituições envolvidas atrasa as soluções. Enquanto isso, a população continua a pagar o preço de um sector agrícola subaproveitado, tanto em termos económicos como sociais.
Sem um plano claro e recursos aplicados de forma eficiente, Angola corre o risco de manter este ciclo de desperdício de terras férteis e dependência externa. A solução passa por políticas públicas que incentivem o investimento privado, melhorem as infraestruturas e promovam a inovação no campo.
A agricultura angolana tem potencial para ser um motor de desenvolvimento, mas esse potencial só será realizado quando as terras disponíveis forem efectivamente aproveitadas. Até lá, o país continuará a importar o que poderia produzir dentro das suas fronteiras.
Fonte: Correio da Kianda
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