Angola prepara-se para liderar mercado aéreo em África
O Presidente João Lourenço deu luz verde à criação de uma equipa especial para pôr em prática a decisão de Yamoussoukro. O objectivo é abrir o espaço aéreo africano à concorrência entre companhias do continente. Com esta jogada, Angola quer transformar o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto num ponto de ligação obrigatório para voos entre África e o resto do mundo.

O Governo angolano acaba de dar um passo decisivo para colocar o país no mapa da aviação africana. Ao assinar o despacho que cria a Comissão Nacional para Acompanhamento da Implementação da Decisão de Yamoussoukro, o Executivo mostra que leva a sério a vontade de liberalizar o transporte aéreo no continente. Esta decisão, assinada pelo chefe de Estado, não é apenas mais um documento burocrático: é o início de uma estratégia que pode mudar a forma como os angolanos e os africanos viajam.
A Comissão, que vai coordenar acções entre os ministérios dos Transportes, das Finanças e das Relações Exteriores, tem uma missão clara: eliminar as barreiras que ainda dificultam a circulação de aviões e passageiros entre países africanos. Hoje, o tráfego aéreo dentro do continente representa uma fatia mínima do total mundial. As razões são conhecidas: acordos bilaterais restritivos, custos elevados e falta de infraestruturas adequadas. Com a liberalização, o objectivo é inverter esta tendência.
A iniciativa não surge do nada. Faz parte de um movimento mais amplo que tem vindo a ganhar força em África nos últimos anos. Outros países do continente já experimentaram estratégias semelhantes, com resultados variados. Em alguns casos, a abertura trouxe mais voos e preços mais baixos. Noutros, as mudanças demoraram a fazer efeito. Angola quer aprender com essas experiências e evitar os erros do passado.
O Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, está no centro desta estratégia. Actualmente, serve como uma porta de entrada para voos internacionais, mas o potencial é muito maior. Com a liberalização do espaço aéreo, a expectativa é que o aeroporto se torne num verdadeiro hub, um ponto de conexão onde passageiros e cargas possam transitar com facilidade entre voos regionais e internacionais. Isso não só facilitaria as viagens dentro de África, como também poderia reduzir os custos dos bilhetes e aumentar a frequência dos voos.
Para que tudo isto aconteça, a Comissão terá de trabalhar em várias frentes. Uma das prioridades será negociar com outros países africanos para reduzir as restrições que ainda existem. Isso inclui acordos sobre rotas, frequências de voos e até mesmo a partilha de infraestruturas aeroportuárias. Outra área crítica será a modernização das instalações aeroportuárias em Angola, garantindo que o Aeroporto de Luanda possa lidar com o aumento de tráfego.
Os desafios não são poucos. O sector aéreo africano enfrenta problemas estruturais há décadas. A falta de investimento em infraestruturas, a burocracia excessiva e a concorrência desigual com companhias de fora do continente são apenas alguns deles. Mesmo assim, há sinais encorajadores. Nos últimos anos, várias companhias africanas começaram a expandir as suas operações, aproveitando novas oportunidades. Angola pode ser um dos principais beneficiários desta mudança.
A Comissão também terá de monitorizar de perto o progresso da implementação. Segundo o despacho presidencial, a equipa deverá apresentar relatórios periódicos sobre os avanços alcançados. Isso permitirá ao Governo ajustar as estratégias sempre que necessário e garantir que os objectivos são cumpridos dentro dos prazos estabelecidos.
O impacto desta decisão pode ir muito além do sector aéreo. Um hub de aviação forte em Angola não só facilitaria o turismo e o comércio dentro do continente, como também poderia atrair mais investimento estrangeiro. Empresas que antes evitavam o país devido às dificuldades de deslocação poderiam reconsiderar a sua posição. Além disso, a criação de empregos no sector da aviação e nas áreas relacionadas — como hotelaria e serviços aeroportuários — seria uma consequência natural.
Ainda assim, os resultados não serão imediatos. A liberalização do espaço aéreo africano é um processo complexo e demorado. Países com economias mais fortes e infraestruturas mais desenvolvidas já tiveram dificuldades em implementar mudanças semelhantes. Angola, que ainda está a recuperar de anos de instabilidade económica, terá de enfrentar desafios adicionais. Mas o potencial de crescimento é enorme.
O Governo angolano já deu o primeiro passo. Agora, cabe à Comissão e aos parceiros envolvidos transformar esta visão em realidade. Se tudo correr como planeado, Angola poderá não só melhorar a sua posição no sector aéreo africano, como também servir de exemplo para outros países do continente que ambicionam seguir o mesmo caminho.
Fonte: Correio da Kianda
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